Noite quente de domingo. Noite gostosa pra passear. Noite boa para experimentar coisas novas e conhecer coisas interessantíssimas. Noite. Domingo.
Aqui em São Paulo existe um "monumento" muito conhecido entre os paulistanos: o minhocão.
É um complexo viário que começa na Praça Roosevelt e vai até a Av. Francisco Matarazzo. São 3,5 Km de tamanho passando, literalmente, entre milhares de prédios e casas antigas que ainda conseguem existir por alí.
Com todo esse histórico, é de se imaginar que naquele pedaço de São Paulo aconteceram e acontecem o tempo todos, histórias de gente comum. Pessoas que nasceram, cresceram e querem morrer no mesmo lugar. Pessoas que carregam consigo um gigante livro de memórias familiares, nacionais e de crescimento dessa São Paulo tão intensa.
Ontem, numa noite de domingo quente e gostosa para se fazer qualquer coisa, foi exibido o documentário "Elevado 3.5" no próprio minhocão, que fica fechado aos domingos.
Foi a intervenção da intervenção. E deu muito certo.
Muita gente, mesmo, estava ali para assistiro documentário, que foi aplaudido ao final da exibição.
As histórias foram marcantes, pra ser bem sincera. Cada uma com sua peculiaridade, sua relevância e emoção, fez com que eu e muitas outras pessoas ali, se emocionassem, mesmo.
O velhinho que já foi rico e hoje vive em 6m², apenas com uma cama de solteiro e uma pia. E do fundo do seu coração confessa que não é feliz. E chora ao lembrar do pai, morto há muito tempo.
Viveu o tempo da boêmia paulistana, aquele que fazia parte apenas do centro. Por onde ainda se passavam os bondes.
Conheceu mais de mil mulheres, nas palavras do próprio, mas não gostou de nenhuma. Fumava maconha pra ir dançar nos bailes dos anos 40. Sim, ela já existia, e provavelmente muito antes disso. E pra terminar o relato dele a supresa foi total. Ele não quer ir pro céu quando morrer "eu não quero ficar ouvindo por 3 mil anos ave ave ave maria, quero ir mesmo é pro inferno, onde tem maconha, cocaína, bebida, mulher!". Ele conquistou a simpatia e risada de todos que estavam alí.
Querem derrumar o minhocão. O projeto parece que está pronto e que só faltam alguns ajustes.
A questão é: as pessoas que moram "dentro" do minhocão, hoje gostam dele e em suas memórias tem aquele gigante como fundo dos acontecimentos.
Assim como quando ele foi construído, nenhum dos moradores foi ouvido a respeito. Hoje, quando a maioria ama o minhocão, querem derrubá-lo, mais uma vez sem ouví-los.
Uma cidade só é cidade quando as mudanças são discutidas com toda a comunidade. Pelo menos era pra ser assim. Mas não é. Será que vai ser um dia?
Enquanto isso segue, eu vim pensativa na volta pra casa. Pensando naquelas pessoas, naqueles anos antes da construção do minhocão. Quando ainda se andava de bicicleta pelas calçadas e famílias inteiras moravam juntas em casarões cheios de história.
Dá pra imaginar a quantidade de coisas que por ali aconteceram?
E eu fico aqui, pensando sobre isso. Não dá, simplesmente, pra fingir que ele não existe.